João Gilberto em Marialva

(cf. http://alexandregaioto.blogspot.com.br/2015/04/o-show-de-joao-gilberto-em-maringa.html)

Entre os meus muitos defeitos, não consta ter rabo preso com ninguém. A única coisa que poderia me impedir de relatar a história seria respeito pelos méritos de quem a levantou, mas esta figura não está mais entre nós. Por isso mesmo, acho que é um dever divulgar os fatos tais quais apurados por Marc Fischer, já que andam circulando versões distorcidas do episódio, como as que chegaram ao jornalista Alexandre Gaioto.

Sempre intrigou aos estudiosos da obra de João Gilberto por que diabos ele, notoriamente tão obcecado por qualidade impecável de som e silêncio do público em suas apresentações, havia se sujeitado a se apresentar, em 1983, num festival aberto para um monte de hippies barulhentos, no que parece a quem vê uma versão brasileira tardia de Woodstock. As imagens, contrastantes com tudo o que se sabe do “padrão João Gilberto”, estão disponíveis em <https://www.youtube.com/watch?v=7BbB8D2kuNw&gt;.

Marc Fischer, alemão obcecado pela obra do pai da bossa nova, queria desvendar a razão da quebra de paradigma para relatar a história no livro que estava preparando sobre o músico.

O que Fischer descobriu beira o inacreditável, mas quando se trata de João Gilberto e da política brasileira…

Acontece que, no começo dos anos 1980, João se tornou viciado no gaspacho que lhe foi servido com tomates produzidos no sítio de um comunista de Marialva. Um amigo de Otávio Terceiro, empresário de sempre do baiano (além de sua única ponte com o mundo externo), trouxe os tomates para o Rio como presente. João tomou um gaspacho feito com aqueles frutos – e pronto. Não queria mais saber de gaspacho feito com nenhum outro tipo de tomate: se lhe ofereciam uma sopa paliativa, bebia um pouco e derramava o conteúdo no chão, qual criança mimada. Só os benditos tomates do comunista de Marialva serviam. Mais um problema com que Otávio Terceiro, já acostumado aos caprichos do folclórico músico, teria de lidar.

A excentricidade de João Gilberto, no entanto, veio bem a calhar para o grupo do qual fazia parte o sitiante de Marialva. Tratava-se de um movimento radical de esquerda, que via na proposta de abertura “lenta, gradual e segura” do general Figueiredo apenas uma embromação dos militares, gerando nefastas possibilidades de recrudescimento da linha dura do Exército; mesmo os movimentos que começavam a surgir pedindo eleições diretas eram vistos apenas como diversionismo pequeno-burguês, que fugiria das transformações profundas que a massa brasileira de oprimidos necessitava para viver com dignidade. O grupo queria, em termos simples, aproveitar o clima de insatisfação geral para retomar a luta armada, usando propriedades do norte do Paraná como um dos centros de treinamento para a Revolução.

Assim, como moeda de troca para o fornecimento de mais tomates a João, combinou-se sua exótica participação gratuita no festival de Águas Claras, que financiou a compra de armas para o grupo.

A sanha do músico por gaspacho, no entanto, estava longe do fim: João queria viver no sítio de Marialva, onde poderia ter acesso ilimitado aos miraculosos tomates. Como paga pela grandiosidade da imposição, o grupo decidiu, em assembleia, que o intérprete de “O Pato” deveria gravar um álbum composto apenas de canções engajadas, cedendo todos os direitos ao movimento. O disco seria gravado em Marialva mesmo, o único lugar seguro: na época, montar um estúdio caseiro (e ainda mais um à altura de João!) ainda era uma empreitada caríssima, mas houve resolução de instâncias internacionais decidindo que o investimento valia a pena, pois seria de enorme apelo o registro fonográfico de um músico mundialmente notório, tão associado à temática alienada da bossa nova, convertendo-se à causa dos camaradas.

João foi recebido em Marialva como um rei – ou melhor, como o líder do Kremlin –, numa segunda-feira fria, 18 de julho de 1983. Representantes de esquerda de toda a América Latina estavam presentes. Sem dizer palavra, sacou o violão e, em fase de ápice criativo, mostrou sua versão de “Para Não Dizer que Falei das Flores”: o que no original de Geraldo Vandré era uma marcha simples que se alternava apenas entre Mi menor e Ré maior, transformou-se numa grandiosa canção de 117 acordes, cada estrofe com um encadeamento harmônico distinto. Brilhante. Quem estava presente sentiu que, naquele momento, não havia mais propriedade privada dos meios de produção no mundo. Segundo a apuração de Marc Fischer, há relatos de que o equipamento de gravação estava rodando, mas não se sabe do destino do registro.

Para brindar sua genial chegada, ofereceram a João um gigantesco copo de gaspacho. Apenas um gole tímido e, em seguida, todo o vermelho frio posto ao chão. “Estes não são os tomates certos. Otávio, vamos embora.”

O gasto inútil com os equipamentos de gravação, somado às brigas que se seguiram para atribuir culpas pela ideia de fazer negócio com aquele maluco filho da puta, dissolveram completamente as possibilidades bélicas do movimento. O sitiante de Marialva, no entanto, até hoje se orgulha da qualidade de seus tomates, como podemos ver em <https://www.youtube.com/watch?v=QcHlhDdag3Q&gt;.

Entre os amigos que fez no Brasil, circulou o original de Marc Fischer de “Ho-ba-la-lá – À Procura de João Gilberto”, contendo toda essa história. Em decisão de última hora, porém, a editora alemã resolveu retirar essa passagem do livro, por acreditar que não condizia com os propósitos da publicação mexer em tamanho vespeiro político: nunca se havia revelado que nos anos 80, já em momento de maiores liberdades individuais e abertura política, havia organização de esquerda ativa com planos de tomada de poder via luta armada no Brasil. Pior: conforme descrito por Fischer, entre os presentes na curtíssima apresentação de João Gilberto em Marialva estava Dilma Vana Rousseff, recém-eleita presidente do Brasil quando Fischer escreveu seu texto.

É provável que o alemão nunca tenha sabido que seu livro seria publicado sem o capítulo do gaspacho de Marialva. Semanas antes do lançamento europeu, o escritor cometeu suicídio, sem deixar bilhete.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s