Um novo lugar para Mônica Salmaso

Difícil estabelecer um lugar para Mônica Salmaso dentro da propalada linha evolutiva da música popular brasileira, cabendo até perguntar se a cantora ocupa algum ponto dentro dessa reta.

Suas qualidades vocais a levaram a uma posição de referência para a interpretação de canções no Brasil – ainda não apareceu alguém dizendo que a mulher simplesmente não sabe cantar –, rendendo-lhe elogios efusivos de medalhões como Edu Lobo e Chico Buarque, e possibilitando parcerias em projetos envolvendo estes e outros grandes nomes. Também é impossível ignorar, no entanto, que para boa parte da crítica musical e para figuras públicas que discutem a cultura brasileira, de modo geral, termos a princípio positivos como “sofisticação” e “bom gosto” aparecem ligados à cantora de maneira curiosamente pejorativa.

Dependendo do ambiente e do humor do comentarista, essa sofisticação e esse bom gosto (o apuro estilístico da cantora, por assim dizer) são vistos em Mônica como geradores de um produto excessivamente apolíneo, conservador, passadista, que pouco acrescenta, caretão, sem graça, chato pra cacete – simulando aqui grau crescente de ira.

A partir deste ponto, podem levantar-se diversas questões, difíceis de responder peremptoriamente, mas ainda assim merecedoras de debate. Quão fundamental é a busca constante pela vanguarda? É adequado cobrar Mônica pelo fato de ela ancorar seu repertório em compositores já consagrados? Revelar novos autores de canção faz parte dos atributos esperados de um cantor? O belo não é o bastante?

Seguindo essa linha de raciocínio, impossível não reparar que, em sua discografia, Mônica, intérprete reiterada de, além de Edu e Chico, Dorival Caymmi e Tom Jobim, entre outros baluartes, jamais registrou nada de Caetano Veloso e/ou Gilberto Gil. Cantora evidentemente preocupada em oferecer próprio tratamento à grande canção brasileira, Mônica vem já há 20 anos ignorando solenemente os autores ligados ao tropicalismo – a não ser por uma única interpretação, em seu álbum Iaiá (2004), de canção de coautoria de Tom Zé, nome, vale lembrar, de relação conflituosa com os assim chamados líderes do movimento.

Tal lacuna de repertório não pode ser vista como acidental: ao não se identificar com o tropicalismo, a cantora, por extensão, distancia-se de um dos marcos brasileiros da chegada do pós-moderno – conceito sempre tão difícil de definir, mas que tem apontadas constantemente como características o diálogo com o contemporâneo e com a cultura de massas, formando um “mosaico de referências”.

Postar-se alheia ao que acontece no mundo é um pecado capital para a visão tropicalista. Se, no distante 1969, carolinas na janela já eram ridicularizáveis, como seria vista a moça que não desgrudou do parapeito quase 50 anos depois? Dada a força do tropicalismo para o desenrolar da canção brasileira, opor-se aos seus ditames trará certamente alguns narizes torcidos – embora o próprio Caetano Veloso, muito tropicalisticamente, já tenha declarado que não vive sem Mônica.

Tendendo a valorizar sempre o urgente e o novo – influência da cultura punk? – desde pelo menos o começo dos anos 80, a crítica musical dos cadernos culturais de jornais diários no Brasil também não tende a ser condescendente com uma intérprete que revisita e revisita canções dos mesmos (óbvios?) nomes. Nessa linha de pensamento, Mônica, que tem como primeiro disco uma compilação dos Afro Sambas de Baden e Vinicius, é velha desde que nasceu.

O álbum Corpo de Baile, lançado no ano passado pela cantora, e pelo qual ela inicia neste mês turnê nacional, pode ser visto como uma resposta a esse tipo de crítica – embora seja uma resposta que levanta ainda mais problemas, evidencia oposições e contrastes, mistura elementos. Sem nunca ser tropicalista, Mônica fez seu próprio mosaico de referências, variando sobre um mesmo tom.

Finalmente, a cantora lança um álbum em que canta majoritariamente canções inéditas – ainda que essas canções inéditas tenham sido compostas nas décadas de 70 e 80; todo o repertório do álbum é de autoria de uma mesma dupla, Guinga e Paulo César Pinheiro, mas uma dupla que está brigada há tempos, sendo que os parceiros não se falam há mais de 20 anos; Mônica mantém o procedimento de apostar em compositores consagrados – mas Guinga já foi descrito como “o desconhecido mais conhecido da música brasileira”, e Paulo César Pinheiro, embora letrista de tantos sucessos, não é uma figura popularmente conhecida, por não ser um “cantautor”, como se passou a dizer.

Discutir o novo álbum de Mônica, cantora mais próxima da “arte pela arte” do que das problematizações vanguardistas, irônica e inevitavelmente descamba para questões que parecem filosofia contemporânea. Se as canções não haviam sido apresentadas ao público dentro da lógica de mercado, elas são novas ou velhas? E mais: isso é significativo? No começo da era dos álbuns, Canções Praieiras (1954), de Dorival Caymmi, e In the Wee Small Hours (1955), de Frank Sinatra – para ficar com exemplos díspares – praticamente só contavam com canções consagradas, já muito regravadas, e ainda assim ficaram para a história como marcos da música popular gravada.

Podemos continuar vendo o jogo de opostos em Corpo de Baile: há a unidade autoral no repertório e a unidade de interpretação da cantora, mas os arranjos de cada faixa foram elaborados por diferentes músicos; há grande diversidade de ritmos e gêneros – seresta, fado, bolero, modinha, marcha, moda de viola, valsa –, mas todos eles parecem unidos por um sabor nostálgico; intérprete, músicos e os compositores do projeto passam um grande sentido de (novamente a palavra!) sofisticação, mas o encarte do álbum parece ter sido feito às pressas, trazendo impressos erros como “cortezã”, “mal sã” (em vez de “malsã”), “elas tem” e “elas vem”, entre outros solecismos e lapsos de digitação; o disco começa com o “Fim dos Tempos” (que funciona como tour de force para Mônica, exigindo extensão vocal de 13 tons e meio!) e termina com “Procissão da Padroeira” que remete a um passado de pureza impossível.

Sem desviar-se de seu caminho e sem grande ruptura, Mônica Salmaso conseguiu para ela mesma um novo e mais elevado lugar na canção brasileira, seja dentro ou fora da linha evolutiva da MPB.

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