O primeiro Sinatra

Convencionou-se chamar de primeira fase da carreira de Frank Sinatra o período que vai de 1939, quando gravou seu primeiro disco como cantor da banda de Harry James, até 1952, depois de ter passado pela banda de Tommy Dorsey, iniciado uma altamente exitosa carreira solo na gravadora Columbia e entrado em decadência – a recuperação viria em 1953, com sua atuação oscarizada no filme From Here to Eternity e a assinatura com a Capitol Records, marcando uma das mais notáveis “voltas por cima” do show business.

É verdade que o cantor passou por um renascimento artístico, mas as tintas com que a história é pintada, para favorecer o efeito dramático da regeneração, talvez deem uma carga pejorativa à sua primeira fase. O desavisado ouve o Sinatra dos anos 1940 sendo descrito como um magricela de olhos azuis, ancorado num repertório sentimental, que provocava histeria em garotas de meia soquete – pronto, pode pensar que se tratava do Justin Bieber da época. Não é bem assim.

É quase consensual que, posteriormente, Sinatra se tornaria um melhor intérprete; desde sempre, no entanto, o homem foi um tremendo cantor: projeção intensa, dicção perfeita e uma clareza e suavidade na voz que fazem alguns fãs ainda preferirem as gravações da Columbia a quaisquer outras de sua carreira. Muitas características que se tornariam marcas registradas do artista também já podiam ser observadas no primeiro Sinatra.

A polivalência já se pode perceber em Anchors Aweigh, filme de 1945 em que, além de apresentar “I Fall in Love Too Easily”, um standard da canção americana, arrisca dançar ao lado de Gene Kelly; o pioneirismo artístico fica claro quando em The Voice of Frank Sinatra (1946), seu primeiro LP, já se pode ver ali um embrião do álbum conceitual; a ousadia é patente quando resolve gravar, também em 1946, uma canção de oito minutos (“Soliloquy”, de Rodgers & Hammerstein), tendo de ser dividida em dois lados de um compacto de 78 rotações; e o senso de arregimentação de turma em torno de si já se mostra ao adotar colaboradores fixos que o acompanhariam por muito tempo, como o arranjador Axel Stordahl e os compositores Jimmy Van Heusen e Sammy Cahn.

Destaca-se dentre outras, no entanto, como virtude no Sinatra dos anos Columbia, o senso perfeito para a escolha de repertório. É arriscado olhar para as canções gravadas por Sinatra nessa fase e julgar a seleção um tanto óbvia e segura, composta apenas de clássicos; não se pode perder de vista que, em muitos dos casos, se essas canções são clássicas, é porque Sinatra assim as tornou, não apenas apresentando temas novos (“All or Nothing At All”, “Nancy”, “Time After Time”) como resgatando outros que andavam meio esquecidos e, depois de sua gravação, tornaram-se definitivos standards (“The Song Is You”, “Ol’ Man River”, “All of Me”).

Mais do que qualquer outra pessoa, Sinatra fixou canções no Great American Songbook – de certa forma, definindo-o. No que diz respeito a esse grande mérito, sua primeira fase talvez seja a mais importante de todas: grande parte de sua carreira posterior tratou de aprimorar, em grande estilo, o que já havia sido gravado pelo jovem Sinatra.

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