O Sinatra crepuscular

Mesmo entre jovens que eram muito pequenos, ou nem sequer eram nascidos quando ele morreu, difícil encontrar quem não consiga associar o nome de Frank Sinatra ao canto – mais precisamente, a um canto de excelente qualidade. Se instigados, esses jovens podem até não conseguir cantarolar nenhuma canção de seu repertório, mas quando ouvem algo do tipo “não sou nenhum Sinatra, mas não faço feio no videokê”, a referência é geralmente entendida. Para tempos pessimistas em relação à qualidade da música popular mais difundida, já se tem aí grande alento, um ponto para o time dos que confiam no “a verdade prevalece” e em outros lemas otimistas. Sinatra ficou.

Pena que, entre os que já estão num nível acima, não se restringindo a associar Sinatra a “um cara das antigas que tinha um vozeirão”, os primeiros fonogramas associados ao cantor são sempre “My Way” (1969) e “Theme From New York, New York” (1980). Pode-se até gostar mais ou menos dessas canções, mas é difícil defender que representam algo significativo do melhor de seu trabalho.

Para este jornalista, “New York, New York”, embora já exiba Sinatra em decadência vocal, é um tema agradável interpretado com personalidade; já “My Way” é meio constrangedor, cafonice nível 7 na escala “Amigos Para Siempre”. É o tipo de coisa que Roberto Justus, quando resolve que é cantor, inclui em seu repertório, sabe?

Especular sobre o porquê de justamente essas duas canções de Sinatra se sobressaírem no conhecimento popular implica entrar no terreno do imponderável. Só não se deve aproveitar esse fato, com sabor de injustiça histórica para os fãs, como argumento de uma simplificação corrente quando se trata de sua obra: não é incomum ler que, a partir dos anos 60, quando fundou sua própria gravadora (a Reprise Records), Sinatra se tornou mais interessado em badalar com seus amigos do Rat Pack, desfilar com damas recém-púberes e animar noitadas de milionários em cassinos do que em gravar bons discos.

Besteira: os novos interesses de Sinatra não fizeram desaparecer seus estupendos dotes de intérprete. Foi apenas uma época em que, por diferentes fatores, muito além da mera playboyzice – a idade, o avanço do rock, a contracultura, a tentativa de reverter a decadência comercial –, o melhor Sinatra apareceu com menos constância. Se é verdade que ele gravou bombas em sua fase Reprise, muito piores do que “My Way”, nunca as grandes interpretações cessaram, e há álbuns irrepreensíveis como Sinatra and Strings (1962), The Concert Sinatra (1963), September of My Years (1965) e Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (1967).

Representativo é o fato de que “Night and Day”, a obra-prima de Cole Porter, só encontrou sua melhor performance justamente em Sinatra and Strings. Em 1962, com arranjo de Don Costa, o cantor conseguiu a proeza de trazer algo novo à canção tantas vezes repisada por ele mesmo e por um sem-número de intérpretes, deixando de lado o canto delicado e etéreo que aparecia no arranjo de Axel Stordahl (1942) e se afastando também do protagonismo rítmico que pedia Nelson Riddle em A Swingin’ Affair! (1957).

A gravação para a Reprise é inusitadamente lenta, quase arrastada, saindo do andamento consagrado para a canção. O que poderia se tornar aborrecido nas mãos de intérprete menos hábil se transforma em oportunidade para Sinatra ressaltar o caráter obsessivo da letra de “Night and Day” – e não é à toa que esta é a única de suas versões para o tema em que aparece a introdução, cujo padrão repetitivo inspirou Tom Jobim e Newton Mendonça em “Samba de Uma Nota Só”.

Para reforçar nosso argumento em favor do Sinatra dos anos Reprise, esqueçamos o fato de que ainda houve um quarto arranjo de “Night and Day” gravado pelo cantor, em 1977, tentando pegar carona na onda disco da época. (Suspiros.) O fato é que fica fácil esquecer eventuais deslizes quando há grandes momentos na obra de um artista, e há muitos instantes luminosos com Sinatra, por toda a extensão de sua carreira. São esses os registros que ficam – junto com “My Way” e “New York, New York”.

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