Tirando proveito do chifre

Dizem, e parece que é mesmo verdade: uma hora ou outra, todos acabam sofrendo por amor. A diferença, meu amigo, é que Frank Sinatra sofreu por Ava Gardner – você está aí choramingando por quem mesmo? De quebra, o homem aproveitou a inconstância de sua senhora Ava como inspiração para gravar, há exatos 60 anos, seu primeiro álbum de 12 polegadas: In the Wee Small Hours, uma coleção de 16 canções de abandono.

Dando início a uma série de álbuns conceituais em sua carreira, In the Wee Small Hours marca a consolidação de uma nova imagem para Sinatra, depois de um período de ostracismo no início dos anos 1950. Com timbre mais escuro, Sinatra emerge como uma espécie de Humphrey Bogart do campo musical, um herói de filme noir a serviço da canção: é o homem que canta sua miséria com tanta altivez, protegido por fortaleza de cinismo, que consegue a proeza de tornar seus chifres invejáveis para o ouvinte.

É curioso perceber que um álbum tão influente tenha sido composto apenas por canções já antigas – com exceção da faixa-título, que também viria a se tornar um clássico. Nesse trabalho de reapresentação de standards do jazz, Nelson Riddle foi tão importante quanto Sinatra, e colheu os frutos ao se tornar o arranjador mais requisitado de seu tempo. A estratégia geral foi desacelerar o andamento das músicas, reconstruindo-as com arranjos delicados, mas muito inventivos – o tema de clarinete para “What Is This Thing Called Love?” se tornou tão identificável quanto a melodia original de Cole Porter.

Como consequência, abriu-se campo para Sinatra mostrar seu novo predicado interpretativo, ainda pouco presente no jovem cantor romântico da década anterior: o poder de transmitir perfeitamente a intenção de uma letra, revelando sentidos que vinham passando desapercebidos em versos já consagrados.

Todo um álbum composto apenas por canções lentas e monotemáticas poderia ser enfadonho, mas Sinatra seleciona seu repertório de modo a variar a coloração de seus chifres, numa rica paleta de fossa: há o corno masoquista (“Glad to Be Unhappy”), o corno irônico (“I Get Along Without You Very Well”), o corno fatalista (“Can’t We Be Friends?”), o corno renitente (“I’ll Be Around”) – e por aí vai.

A audição do disco pode ter efeito purificador: em caso de falta de recursos para compor sua própria grande obra ao sofrer pela Ava Gardner que cada um merece, mesmo a simples fruição da desgraça alheia, aqui em forma tão bela, já tem sua serventia. Acredite, meu amigo: 50 minutinhos com Sinatra funcionarão melhor do que arroubos de violência, vexames etílicos ou constrangimento de meros colegas forçosamente promovidos a amigos confidentes.

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