Carlos Heitor Cony (1926-2018)

Ele mesmo se anunciava como o mais antigo doente terminal do Brasil, de modo que não é surpresa, ainda mais aos 91 anos. De qualquer modo, não posso deixar de ficar triste com a morte de Carlos Heitor Cony, o escritor que mais diretamente me influenciou em seu estilo. Pelo pessimismo sem concessões, a erudição mesclada ao coloquialismo num mesmo período, o uso do nonsense repentino dentro de uma trama realista, o uso do humor negro dentro de um enredo dramático (quando não trágico), a angústia quanto a acreditar ou não em Deus (mais do que quanto à existência divina) etc. etc. etc.

Cony reconhecia que havia “sobrevivido” a sua obra, de modo que não creio ser desrespeitoso apontar que nos últimos 15 anos sua produção estava muito, mas muito aquém de seu melhor. Parecia que ele estava ligado no modo automático para soltar mais uma de suas crônicas nos dez minutos que sempre disse levar para produzi-las – mas ultimamente nem era tanto de se espantar que esse fosse o tempo de elaboração delas. De vez em quando, ele ainda acertava a mão e nos fazia lembrar do antigo Cony, e que bom que sua última crônica publicada na Folha de S. Paulo, “Uma carta e o Natal”, seja de antologia.

Esse seu período de decadência criativa coincide com o episódio da batalha judicial para conseguir uma pensão vitalícia como forma de indenização por prejuízos relacionados ao regime militar que se impôs em 1964. Como era norma com ele, essa passagem o indispôs com a esquerda e com a direita, de modo que, depois de um período de euforia celebratória que se sucedeu à publicação de “Quase Memória” (1996), seu valor como escritor vinha tendendo a ser subestimado.

Para efeitos imediatos, é uma pena, mas nada disso impede que pelo menos cinco de seus romances fiquem para a posteridade: “O Ventre” (1958), “Informação ao Crucificado” (1961), “Pessach: a Travessia” (1967), “Pilatos” (1973 – o preferido do autor, e certamente o mais original) e o já citado “Quase Memória”. Como cronista, o melhor de sua produção está nos volumes “Da Arte de Falar Mal” (1963) e “O Ato e o Fato” (1964); o primeiro traz “Sou Contra”, que é minha crônica preferida no mundo; o segundo é uma coletânea publicada ainda no ano do golpe, com a produção integral de Cony para o Correio da Manhã entre os meses de abril e meados de julho, todos os textos descendo o cacete nos militares. Principalmente por ter conseguido múltiplas reedições, mesmo contrariando duas normas básicas para a publicação de crônicas em livro – a de que devem ser inclusos na coletânea apenas os “melhores” textos lançados em jornal pelo autor dentro de determinado período, dando preferência às crônicas que fogem da temática datada –, “O Ato e o Fato” foi o objeto de estudo de minha dissertação de mestrado.

E ainda há o Cony contista, editorialista, tradutor, adaptador, roteirista de cinema e novelas, repórter… É um grande escritor que nos deixa, e estou triste por isso.

 

SOU CONTRA

Carlos Heitor Cony – 1963

 

Sou contra as reformas de base e contra a erradicação da malária. Contra o fomento da agricultura e contra a conjuntura nacional. Contra a livre determinação dos povos e contra as injunções de ordem político-social. Contra as reivindicações do proletariado e contra os sagrados postulados da nossa civilização cristã. Contra os imperativos de justiça social e contra as inalienáveis prerrogativas da pessoa humana.

Sou contra os simpósios de agricultura e contra a recuperação da nossa lavoura. Contra as objurgatórias indeclináveis e contra as mais legítimas tradições do povo brasileiro. Contra as ofensivas contra o câncer e contra as campanhas de orientação vocacional. Contra os lídimos representantes das classes produtoras e contra os autênticos interesses de nossa soberania.

Sou contra o impostergável dever de consciência e contra a exata compreensão dos meus deveres de cidadão. Contra os sadios princípios que norteiam as nossas Forças Armadas e contra as pressões de cúpula com que se procura oprimir o proletariado. Contra a voz do dever, contra o fato político, contra o gosto da glória, contra o cheiro da santidade e contra os pagamentos à vista.

Sou contra a ampla pesquisa ao eleitorado e contra o desenvolvimento de nosso parque industrial. Contra o ruidoso sucesso e contra o festejado autor. Contra o lúcido ensaísta e contra o rigoroso crítico teatral. Contra o promissor poeta e contra o fino humorista. Contra o competente historiador e contra o agudo filósofo. Contra o hábil cronista e contra o paciente pesquisador. Sobretudo, contra o vibrante jornalista.

Sou contra a arregimentação das consciências e contra o arbítrio das decisões apressadas. Contra os pontos de estrangulamento da nossa economia e contra as infra-estruturas superadas. Contra a evasão de nossas divisas e contra a inversão de capitais opressores. Contra a livre-tramitação das emendas e contra o esgotamento dos prazos legais. Contra o aumento de nossa dívida externa e contra os males intestinos de nossa política interna. Contra a descentralização administrativa e contra os males da burocracia. Contra a recuperação dos delinqüentes e contra as fontes produtoras de riquezas.

Sou contra a integração do vale amazônico e contra a mecanização da lavoura. Contra a sangria em nossas finanças e contra o imediato socorro às regiões desamparadas. Contra a vacinação em massa e contra os óbices que entravam o nosso progresso. Contra as decisões de cúpula e contra os alicerces de nossa nacionalidade.

Sou contra o mais fino ornamento da sociedade e contra o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Contra o decreto das urnas e contra o quadro de nossas importações. Contra os estudos afro-asiáticos e contra os distúrbios do vago simpático. Contra a subversão das massas e contra o esvaziamento das nossas tradições. Contra a hierarquia de valores e contra a perquirição sociológica. Contra as ideologias insólitas e contra o transplante de idéias alienígenas. Contra a flora intestinal, contra a eclosão de entusiasmo, contra a equipe magiar, contra a preservação de nossas reservas florestais, contra o colóquio de física nuclear, contra o abastardamento de nossas instituições, contra a política cafeeira, contra a etapa de desenvolvimento e, sobretudo, contra as mulheres que fazem os poetas sofrerem, os governantes roubarem, os comerciantes falirem, os filósofos meditarem e os pecadores pecarem.

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