Dicas essenciais para o jornalista em início de carreira

1 – Se você só gosta de carne bem passada, não merece o respeito nem da comunidade vegetariana nem das pessoas normais. Tome tento e escolha um lado;

2 – Quando lhe servirem um drink com canudinho, descarte-o e trague a bebida com a boca diretamente no copo;

3 – Nunca, jamais, EM NENHUMA HIPÓTESE, coma sanduíche com garfo e faca;

4 – As galinhas podem botar ovos mesmo sem entrar em contato com galos;

5 – É deselegante palitar os dentes em público, tirar cera do ouvido em público, usar pochete, ostentar pau de selfie e comer o grand gâteau do Paris 6;

6 – Perguntar “é sua filha?” ou “é seu filho?” para pessoas de meia-idade é procedimento temerário;

7 – Ao contrário do que se pensa, verde, e não preto, é a melhor cor para vestidos femininos;

8 – Alguém já viu, juntos, Clóvis Rossi e Roberto Menescal? Pensem nisso;

9 – Mais cedo ou mais tarde, o hipocondríaco sempre tem razão;

10 – Monte suas listas com base no sistema decimal.

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João Gilberto em Marialva

(cf. http://alexandregaioto.blogspot.com.br/2015/04/o-show-de-joao-gilberto-em-maringa.html)

Entre os meus muitos defeitos, não consta ter rabo preso com ninguém. A única coisa que poderia me impedir de relatar a história seria respeito pelos méritos de quem a levantou, mas esta figura não está mais entre nós. Por isso mesmo, acho que é um dever divulgar os fatos tais quais apurados por Marc Fischer, já que andam circulando versões distorcidas do episódio, como as que chegaram ao jornalista Alexandre Gaioto.

Sempre intrigou aos estudiosos da obra de João Gilberto por que diabos ele, notoriamente tão obcecado por qualidade impecável de som e silêncio do público em suas apresentações, havia se sujeitado a se apresentar, em 1983, num festival aberto para um monte de hippies barulhentos, no que parece a quem vê uma versão brasileira tardia de Woodstock. As imagens, contrastantes com tudo o que se sabe do “padrão João Gilberto”, estão disponíveis em <https://www.youtube.com/watch?v=7BbB8D2kuNw&gt;.

Marc Fischer, alemão obcecado pela obra do pai da bossa nova, queria desvendar a razão da quebra de paradigma para relatar a história no livro que estava preparando sobre o músico.

O que Fischer descobriu beira o inacreditável, mas quando se trata de João Gilberto e da política brasileira…

Acontece que, no começo dos anos 1980, João se tornou viciado no gaspacho que lhe foi servido com tomates produzidos no sítio de um comunista de Marialva. Um amigo de Otávio Terceiro, empresário de sempre do baiano (além de sua única ponte com o mundo externo), trouxe os tomates para o Rio como presente. João tomou um gaspacho feito com aqueles frutos – e pronto. Não queria mais saber de gaspacho feito com nenhum outro tipo de tomate: se lhe ofereciam uma sopa paliativa, bebia um pouco e derramava o conteúdo no chão, qual criança mimada. Só os benditos tomates do comunista de Marialva serviam. Mais um problema com que Otávio Terceiro, já acostumado aos caprichos do folclórico músico, teria de lidar.

A excentricidade de João Gilberto, no entanto, veio bem a calhar para o grupo do qual fazia parte o sitiante de Marialva. Tratava-se de um movimento radical de esquerda, que via na proposta de abertura “lenta, gradual e segura” do general Figueiredo apenas uma embromação dos militares, gerando nefastas possibilidades de recrudescimento da linha dura do Exército; mesmo os movimentos que começavam a surgir pedindo eleições diretas eram vistos apenas como diversionismo pequeno-burguês, que fugiria das transformações profundas que a massa brasileira de oprimidos necessitava para viver com dignidade. O grupo queria, em termos simples, aproveitar o clima de insatisfação geral para retomar a luta armada, usando propriedades do norte do Paraná como um dos centros de treinamento para a Revolução.

Assim, como moeda de troca para o fornecimento de mais tomates a João, combinou-se sua exótica participação gratuita no festival de Águas Claras, que financiou a compra de armas para o grupo.

A sanha do músico por gaspacho, no entanto, estava longe do fim: João queria viver no sítio de Marialva, onde poderia ter acesso ilimitado aos miraculosos tomates. Como paga pela grandiosidade da imposição, o grupo decidiu, em assembleia, que o intérprete de “O Pato” deveria gravar um álbum composto apenas de canções engajadas, cedendo todos os direitos ao movimento. O disco seria gravado em Marialva mesmo, o único lugar seguro: na época, montar um estúdio caseiro (e ainda mais um à altura de João!) ainda era uma empreitada caríssima, mas houve resolução de instâncias internacionais decidindo que o investimento valia a pena, pois seria de enorme apelo o registro fonográfico de um músico mundialmente notório, tão associado à temática alienada da bossa nova, convertendo-se à causa dos camaradas.

João foi recebido em Marialva como um rei – ou melhor, como o líder do Kremlin –, numa segunda-feira fria, 18 de julho de 1983. Representantes de esquerda de toda a América Latina estavam presentes. Sem dizer palavra, sacou o violão e, em fase de ápice criativo, mostrou sua versão de “Para Não Dizer que Falei das Flores”: o que no original de Geraldo Vandré era uma marcha simples que se alternava apenas entre Mi menor e Ré maior, transformou-se numa grandiosa canção de 117 acordes, cada estrofe com um encadeamento harmônico distinto. Brilhante. Quem estava presente sentiu que, naquele momento, não havia mais propriedade privada dos meios de produção no mundo. Segundo a apuração de Marc Fischer, há relatos de que o equipamento de gravação estava rodando, mas não se sabe do destino do registro.

Para brindar sua genial chegada, ofereceram a João um gigantesco copo de gaspacho. Apenas um gole tímido e, em seguida, todo o vermelho frio posto ao chão. “Estes não são os tomates certos. Otávio, vamos embora.”

O gasto inútil com os equipamentos de gravação, somado às brigas que se seguiram para atribuir culpas pela ideia de fazer negócio com aquele maluco filho da puta, dissolveram completamente as possibilidades bélicas do movimento. O sitiante de Marialva, no entanto, até hoje se orgulha da qualidade de seus tomates, como podemos ver em <https://www.youtube.com/watch?v=QcHlhDdag3Q&gt;.

Entre os amigos que fez no Brasil, circulou o original de Marc Fischer de “Ho-ba-la-lá – À Procura de João Gilberto”, contendo toda essa história. Em decisão de última hora, porém, a editora alemã resolveu retirar essa passagem do livro, por acreditar que não condizia com os propósitos da publicação mexer em tamanho vespeiro político: nunca se havia revelado que nos anos 80, já em momento de maiores liberdades individuais e abertura política, havia organização de esquerda ativa com planos de tomada de poder via luta armada no Brasil. Pior: conforme descrito por Fischer, entre os presentes na curtíssima apresentação de João Gilberto em Marialva estava Dilma Vana Rousseff, recém-eleita presidente do Brasil quando Fischer escreveu seu texto.

É provável que o alemão nunca tenha sabido que seu livro seria publicado sem o capítulo do gaspacho de Marialva. Semanas antes do lançamento europeu, o escritor cometeu suicídio, sem deixar bilhete.

Considerações rabugentas

De vez em quando, ainda teimam em me chamar para festas. Difícil. Pior é quando, na tentativa de tornar o convite mais atraente, dizem de passagem que o lugar tá “bombando” com “músicos, atores, artistas plásticos, cineastas, jornalistas” etc. Desculpem-me o habitual tom ranzinza, mas qual a vantagem? Essa cambada de vagabundos sempre está na rua enchendo a cara, sem precisar de pretextos. Ter uma festa bombando com tipos assim não significa nada. Ficaria impressionado se me dissessem que há um novo bar que vem lotando todas as noites com contadores, bancários e auxilares de escritório – aí eu sentiria credibilidade. E se descobrirem a festa da moda entre despachantes, por favor, chamem-me logo que eu vou correndo.

 

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Se formos tomar como amostragem as publicações da crítica jornalística brasileira, os Ramones são o apogeu artístico da civilização. Nos cadernos de cultura da vida, é mais fácil encontrar relativizações dos méritos das missas de Bach, do teatro de Shakespeare, das esculturas de Michelangelo, dos contos de Tolstói e dos girassóis do Van Gogh do que achar vivalma que ouse colocar um senãozinho nos três acordes dos rapazes. Dá o que pensar.

 

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Não entendo como há homens avançados na idade adulta que demonstram orgulho ao compartilhar seus reais ou ilusórios feitos com mulheres virgens. Eu nunca sei como me portar como audiência, é tão desinteressante! Admitindo que faça sentido gabar-se publicamente por feitos sexuais – uma assunção duvidosa, no mínimo –, qual o ponto de contar vantagem por ter feito isto ou aquilo, por ter levado a este ou àquele lugar uma pessoa absolutamente sem perspectivas no mérito, privada de qualquer base de comparação?

Como eu queria ter a capacidade de criar – e acreditar em – truques para elevar minha autoestima tão facilmente assim. Como não tenho, também me liberto da tarefa de ter paciência para com essas almas carentes: meu amigo, no dia em que você vier me relatar como revolucionou o entendimento sexual de uma mulher que passou por quatro partos normais, terá toda a minha atenção.

 

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Eu tenho medo da solidão, de altura, de agulhas e de releituras contemporâneas.

 

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Aguardem minha piada sobre Nuno Leal Maia, Olavo de Carvalho, Guilherme Arantes e um aspargo feminista se encontrando no Jassa Cabeleireiros.

Ode à recepcionista

Deus salve os rios, as matas, as montanhas, os fiscais da receita federal, o samba de breque e o ovo pochê – mas sobretudo salve Deus as recepcionistas.

Deus salve as recepcionistas e suas meias desfiadas, as recepcionistas de rímel aplicado só na raiz dos cílios, as recepcionistas com sua rapidez invejável para mudar de tela quando alguém se aproxima. Louvemos a postura cervical desmazelada quando vêm chegando as seis horas da tarde, a risada explosiva ante a indiscrição da colega (reprimida com lábios mordidos e um soquinho na mesa), a entonação de tédio indisfarçado ao telefone quando alguma alma pobre lhe repete a mesma pergunta pela milionésima vez. Por favor, meu deusinho, salve as recepcionistas e as irmãs das recepcionistas.

Porque não há em toda a flora mundial e multiplanetária espécie tão bela quanto a mais ordinária das recepcionistas. Sim, mesmo aquela que nunca amou, mesmo aquela que não ergue os olhos para dizer “bom dia”, mesmo a recepcionista que neste momento espalha o segredo confiado pela melhor amiga traz consigo um charme intransponível, uma chama iridescente nas entranhas, um apelo com não-sei-quê suficiente para tornar tediosas quaisquer pétalas, corolas e sépalas denotativas.

Neste sábado, uma recepcionista cederá à insistência de sua companhia e experimentará gim-tônica pela primeira vez, odiando a bebida (isso é tão bonito!); amanhã, uma recepcionista se deitará, por caridade, com um ex-namorado contador (isso é belo, é emocionante); na segunda-feira, outra recepcionista matará pela terceira vez sua tia para não comparecer ao trabalho – e só de pensar nisso me dá uma vontade desgraçada de chorar.

Se é verdade que basta um deputado ter uma ideia para o Brasil piorar um pouquinho, não é necessário nada além do gesto mais banal (ou da simples presença imóvel) de uma recepcionista para que a poesia indizível reverbere no ambiente. Pesquisadores britânicos já afirmaram que nunca houve uma guerra cujas trincheiras contassem com recepcionistas, e mesmo o espírito mais soberbo se queda humílimo e aquiesce quando uma recepcionista lhe pede o número do RG.

Com isso tudo posto, desnecessário afirmar que amo as recepcionistas – mas sou cético quanto à utilidade de qualquer “hostess”.

A triste história do menino Guilherme Bastos

Quem associa a infância à época mais feliz da vida não está se lembrando de Guilherme Bastos. Quanta angústia cabia naquela pequena e pobre alma pueril!

Num belo dia de seus primeiros anos, cometeu a fatal burrada de demonstrar satisfação quando sua mãe lhe serviu de pão com requeijão e suco de maracujá. Para quê. Para o resto de seus dias escolares, estava decidida a boia que levaria em sua lancheirinha. Fizesse chuva ou sol, seja lá em que estação, em tempos de guerra ou de paz, pão com requeijão e suco de maracujá era o que ele tinha de carregar e comer.

Nos primeiros meses, temeroso em relação à figura autoritária da mãe, engolia a ração sem queixas. Mas quando a náusea lhe forneceu a suficiente coragem para uma tímida averiguação da possibilidade de mudança alimentar, teve de ouvir um discurso de meia hora sobre sua deplorável ingratidão, perante os pais e perante Deus, haja vista todo um mundão de crianças que não tinham o que comer.

Como a privação é a mãe da criatividade, e irmã da paciência, viu naquelas moedinhas do troco do cigarro que o pai mandava comprar (os tempos eram outros) a possibilidade de um dia de redenção. Sim, bastava um dia. Foram três semanas avaras de acúmulo de centavos para poder esvaziar sua lancheira da tranqueira de sempre e preenchê-la clandestinamente com um glorioso big mac.

Até hoje, Bastos não sabe se sua mãe, sabe-se lá de que jeito, descobriu seu sulfuroso plano e teve a ver com os fatos que se seguiriam. Chegada a hora do recreio, a inspetora anunciou o dia de troca de lanche com o amiguinho, brilhante lição pedagógica de partilha e desapego material. Qual um rei se despojando de secreta coroa, teve de entregar seu lanche a um rapaz mais novo, de olhos remelentos e famintos. A felicidade do pirralho ao receber o sanduba lhe pareceu desproporcional, mesmo se tratando de um sublime big mac. Só compreendeu tudo quando se lembrou de checar o que havia sido posto, como troca, em suas mãos: pão com requeijão e suco de maracujá.

Masterchef na Bandeirantes – o criador e a criatura

A referência – um reality show de gastronomia – pode fazer a dita classe pensante torcer o nariz, mas vem sendo muito instrutivo acompanhar o programa “Masterchef”, na Bandeirantes. São especialmente úteis as intervenções do sr. Erick Jacquin, um dos jurados, para entender algumas questões incômodas no setor de restaurantes paulistano – e cabe dizer, por extensão, no setor de serviços brasileiro.

De acordo com o que ensina o renomado chef aos candidatos do show televisivo:

a) é visto como esperteza salutar fazer comensais acreditarem que estão se servindo de algo preparado com caldo de carne enquanto, na verdade, estão comendo tabletes da knorr ou coisa que o valha;

b) se você troca o pedido de um cliente, em vez de assumir o equívoco e pedir desculpas, leve-o a crer que não houve engano, pois está sendo servida uma criação exclusiva do chef, feita especialmente para o consumidor em questão – assim, ele se sentirá lisonjeado pela deferência de tão elevado artista da cozinha e nem se importará com o que está comendo;

c) se você erra o ponto do hambúrguer e o serve cru, gelado no centro, não assuma o erro: desqualifique o consumidor, dizendo que ele não sabe comer, não está à altura do repasto e tem paladar de “menininha”.

Em suma, uma doutrina baseada no culto ao personalismo e no desrespeito ao consumidor pagante. Os exemplos que dei não são extrapolação interpretativa com fins difamatórios: o cara REALMENTE passou essas “dicas” e esses exemplos, na tv aberta, em rede nacional. Dá matéria para se pensar, não?

Também é impossível não reparar que esse senhor mora há trocentos anos no Brasil e não sabe falar português, detalhe que me irrita sobremaneira – e é um tanto sintomático, acho.

Para completar, o sr. Jacquin tem a coragem cômica de se gabar por ser “especialista” em steak tartare, o que a mim equivale a um violonista se dizer especialista na corda si, ou a um crítico literário se dizer especialista no segundo capítulo de “O Pequeno Príncipe”.

Teremos sempre um problema para se lidar enquanto a importância do criador continuar transcendendo a da criatura – seja na cozinha, no quarto, na política, na guerra, no jogo de pelota basca ou na feitura de bolas de sabão.

Comunicação clara e eficaz em língua portuguesa – apostila para download

Disponibilizo aqui, para download (link no final do texto), a apostila do curso “Comunicação Clara e Eficaz em Língua Portuguesa”, que está sendo ministrado na Escola Dona Lindu, em Diadema, como resultado de uma parceria entre essa instituição e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Como elaborei esse texto por encomenda da Pró-Reitoria de Extensão do IFSP (uma escola pública federal), acho justo torná-lo amplamente disponível para consulta.

O curso é composto de 20 aulas. Elaborei-as com o objetivo expresso de “aprimorar a clareza e a eficácia de comunicação dos alunos”, buscando incutir neles a noção de que “o domínio da organização normativa da língua portuguesa não é um fim em si mesmo, mas antes um meio para aprendizagem, aprimoramento de repertório e ganho de eficácia expressiva e comunicativa”. O leitor da apostila encontrará misturados assuntos tradicionalmente ligados a aulas de gramática, aulas de literatura, aulas de redação e aulas de interpretação de textos. Essa combinação é intencional, pois o autor acredita que a divisão do ensino de língua portuguesa em matérias estanques é didaticamente perniciosa.

No curso, tenta-se abordar assuntos muito amplos em espaço limitado. Foram feitos esforços de síntese e revisão, mas imprecisões e inadequações poderão se revelar ao leitor atento. O compartilhamento público do curso também tem o objetivo de colher sugestões para que o texto possa ser aprimorado em novas versões.

Quem quiser usar aulas da apostila para fins didáticos está livre para fazê-lo – peço apenas a gentileza de que me avisem, se isso acontecer.

O principal referencial teórico para a elaboração do curso foi Othon M. Garcia, por meio de seu “Comunicação em Prosa Moderna”, leitura altamente recomendável a todos os que se interessam pelo assunto. As demais referências estão listadas em ordem alfabética, ao final da apostila.

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A bossa negra de Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda

Difícil encontrar alguém que negue o fato de Diogo Nogueira ter um belo timbre, além de saber colocar muito bem sua voz e conseguir sustentar-se sempre afinado, das notas mais graves até as mais agudas de sua extensão. Para que essas qualidades técnicas forjem um bom cantor, no entanto, é preciso que se somem às virtudes esperadas de um intérprete: planejamento de repertório, trabalho conjunto com arranjadores para determinar uma intenção artística, sensibilidade para entender uma melodia letrada e atacar cada nota com nuances que valorizem a mensagem da canção – e aqui ainda poderíamos citar muitos aspectos ligados à divisão melódica, à respiração etc.

Até agora, em seu currículo artístico, Diogo Nogueira vinha se comportando como um piano afinado: um instrumento valiosíssimo, de muito potencial, mas que precisa de mediação humana para gerar boa música. Seria maldoso defender que a carreira de Nogueira vinha sendo conduzida de maneira robótica, não é isso, mas parece justo apontar que os esforços mais humanos de seu trabalho – em oposição à qualidade técnica que sempre esteve lá – vinham sendo dirigidos para a construção de uma imagem de galã novelesco, gatão das gatinhas, e não para a consolidação de um intérprete valoroso do cancioneiro popular.

Toda essa introdução para passar o seguinte conselho: se você tem reservas ao nome de Diogo Nogueira por razões parecidas com as que listei acima, dê uma chance para o cara e veja/ouça seu “Bossa Negra”, turnê nacional com o bandolinista Hamilton de Holanda que estreou nesta semana em São Paulo, ancorada no álbum recém-lançado de mesmo nome.

Dispensemos o blá-blá-blá conceitual elaborado para vender o trabalho: basta saber que o repertório junta clássicos da canção nacional a temas novos, compostos pelos dois protagonistas do projeto com o auxílio de alguns parceiros. A mistura se integra muito bem em arranjos que mantêm a mesma formação inusitada em todos os números: apenas voz, bandolim, contrabaixo e percussão (recuso-me a corroborar o neologismo “percuteria” apresentado no projeto). Ouve-se uma união coesa de elementos, uma sobreposição que não soa como “salada” (o que é uma conquista rara e, por isso, merecedora de valorização). Podem-se perceber caminhando juntos samba, jazz, bossa nova, choro, contrapontos eruditos e até pagode – curiosamente, a lembrança dos afrossambas de Baden e Vinicius, declaradamente a maior influência para a realização do trabalho, não vem à mente de maneira tão óbvia quando se ouvem as canções de “Bossa Negra”.

Diogo Nogueira está ótimo. Se qualidade vocal o rapaz já tinha, e lhe faltava um pouco de esforço para tentar maiores pretensões artísticas, em “Bossa Negra” há um bom argumento a seu favor. Não sei se sua motivação para o projeto foi algo do tipo provar que não é “apenas um rostinho bonito”, mas se houve algo nesse sentido, a prova apresentada é contundente. Há forte campanha para minorar a valorização das aparências em nossas vidas, de resto uma luta justa, mas não há como resistir à tentação de comparar as (breguíssimas) capas dos álbuns anteriores de Diogo Nogueira com a capa de “Bossa Negra”: a impressão imediata é a de que deve vir algo mais sério dali, e o conteúdo musical do álbum cumpre a promessa da embalagem.

Quanto a Hamilton de Holanda, destacar suas qualidades como instrumentista pode parecer de uma obviedade ofensiva para qualquer um familiarizado com seu trabalho, mas há de se destacar que esse é seu primeiro trabalho de relevo ligado à canção, em vez de ligado à música instrumental. Há riscos grandes para o músico nessa mudança de área, aos quais já sucumbiram muitos instrumentistas virtuosos: pode-se atravessar o cantor, atrapalhando a apreensão da melodia vocal com excesso de notas, ou, pelo contrário, pode-se subutilizar seu próprio potencial de instrumentista, acompanhando o cantor com burocráticos blocos de acordes. Basta dizer que Holanda foge das duas armadilhas, preservando suas qualidades notórias de bandolinista também na execução de canções e encontrando o tempo certo para chamar a atenção.

Juntos, Holanda e Nogueira construíram um conjunto de canções que cria imediata necessidade de audição para todos os que se importam com essa forma de arte no país – especialmente para os que se importam com a canção brasileira e dizem que não se faz nada que preste há mais de 30 anos, antigamente é que era bom etc. Com esses temas novos integrados a releituras originais de clássicos tão díspares quanto “Desde que o Samba é Samba”, “Risque” e “Mundo Melhor”, temos em “Bossa Negra”, o álbum e o concerto, o evento mais relevante do ano na área de canção nacional. A se ver, a se ouvir.

Por que Aécio Neves não ganhará as eleições

Você já viu várias gentes dizendo que a mídia está dominada pelo partido da imprensa golpista, cuja razão de ser é recuperar os privilégios perdidos com a chegada de um governo “do povo” ao poder; também conhece os defensores da tese de que as hordas comunistas se infiltraram de maneira tão eficiente nos veículos de comunicação que nem os próprios diretores de jornal, muito menos os repórteres, percebem que estão trabalhando pela perpetração de um que esquema que mitiga as liberdades individuais e corrói os valores da família brasileira.

Análises tão opostas se anulam e produzem provas contra elas mesmas: esses pregadores se utilizam de meios de comunicação para dizer que não há espaço para ideias distintas nos meios de comunicação, enquanto embasam seus argumentos com fatos colhidos de outros meios de comunicação.

Donos de jornal arranjam formas de ganhar dinheiro com seja lá qual for o presidente; qualquer repórter mediano tem a vaidade de descobrir podres de seja lá qual for o político muito à frente de simpatias partidárias. Não existe reunião mensal de chefes de redação para criar uma pauta una e decidir como dominar o mundo. Erros de português dos ”mafiosos da comunicação” constituem uma questão bem mais preocupante do que o suposto poder determinador sobre os rumos da sucessão política nacional.

Mas essas obviedades, tão cristalinas, soam como borrões aos apaixonados, porque eles são… apaixonados! Gente apaixonada é muito burra e impenetrável, como qualquer não apaixonado pode perceber, embora todos tenham passado, ou ainda haverão de passar, por suas horas de paixão. A mim me parece, serve-me de consolo, que expor sua idiotice em público por uma bela dama ao menos é mais poético do que babar por um partido político, mas não estou aqui para julgar as inclinações sexuais de ninguém.

Há muitos chamados “formadores de opinião” que expressam livremente suas afinidades em relação ao PT ou ao PSDB, seja por veículos mais tradicionais (jornal, rádio, TV), seja por páginas de internet e redes sociais. Marineiros também já apresentam uma força inegável, e todos operam com maior ou menor grau de boçalidade apaixonada. Filtrando as parvoíces e alucinações, há como achar excelentes pontos a favor de cada um dos três principais candidatos e incontestáveis nódoas em seus currículos. A partir do ano que vem, estaremos com um líder melhor do que Paulo Maluf e pior do que o Professor John Robinson, do Perdidos no Espaço. Como bom pessimista que sou (não existem otimistas, só gente mal informada, diz o Cony), esse já me parece um panorama bom o suficiente.

É sem emoção, portanto, que percebo que Aécio Neves não levará essa – não deposito minha fé em nenhum dos três, nem rogo pela vitória de qualquer um deles em minhas orações, mas também não vejo riscos, seja lá quem leve a faixa, de haver a consumação do holocausto zumbi, a “descontinuação” do sorvete Häagen-Dazs ou a aposentadoria do Woody Allen.

Enquanto os mais exaltados petistas e marineiros expõem seus argumentos e desargumentos com toda a força da alma, listando zilhões de razões e desrazões por que seus candidatos são os melhores, os tucanos são um grupinho enrustido, do armário. Coisa mais rara é achar um pê-esse-debista que bata no peito e vá com orgulho para a Avenida Paulista. Eu, tucano? Imagina, só porque votei no PSDB nas últimas 87 eleições e não suporto a ideia de votar em qualquer outro partido? Sou forçado a isso, com a atual conjuntura, temos de tirar essa desgraça daí de qualquer jeito, blá blá blá blá blá.

Propagandeando o candidato “menos ruim”, enquanto os outros louvam a honra e o mérito de seus escolhidos, não há como os formadores de opinião tucanos conseguirem algo melhor do que a pregação para os convertidos, não se dando ao trabalho de tentar dissuadir quem está em dúvida – mais do que isso, humilhando quem está em dúvida, atribuindo a quem cogita qualquer opção, se não a “óbvia”, uma escala de adjetivos que vai de “sórdido” a “acéfalo”. Mas talvez isso não os incomode: escolher um presidente é uma responsabilidade com riscos óbvios – vai que o cara chega lá, faz um monte de merda e nos deixa como paspalhos? –, enquanto sentir-se parte de um clube de elite, superior intelectual e moralmente, ah, isso é recompensador.

Eu confesso que

Lia textos curtos em redes sociais, do tipo “meu feijão queimou”, “comprei uma blusa nova”, “tô com preguiça de ir pra academia” e, em minha inocência, não entendia a motivação para pessoas compartilharem dados de aparente irrelevância para qualquer outro ser que não fossem os próprios autores dessas mensagens confessionais. Tive de realizar profunda meditação, reavaliação de posturas e limpeza de preconceitos para perceber que se trata de nova forma expressiva que não pode ser desprezada só porque até então não havia sido explorada dignamente pela assim chamada “alta cultura”.

Tentarei fazer então pequeno exercício de reciclagem profissional e aderir à nova tendência – de maneira um tanto particular, claro, pois seria muito arrogante tentar copiar os mestres dessa forma criativa. Isso posto, confesso que:

a)      Sempre achei as girafas mais interessantes do que os cachorros ou os gatos – aguardo ascensão social para que possa ter uma, como bicho de estimação, em meu quintal;

b)      “Bandeira; flâmula” é uma ótima resposta para se dar no glorioso jogo de tabuleiro Academia, seja qual for o substantivo pedido pela banca;

c)      Na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba;

d)     Entre Lennon e McCartney, fico com Brian Wilson;

e)      Tenho dificuldades para comprar calças que me sirvam, pois a numeração ideal para a minha perna direita seria 42, enquanto a perna esquerda pede um 48;

f)       Meu olho direito vê consideravelmente melhor do que o esquerdo;

g)      Meu ouvido esquerdo escuta com muito mais sensibilidade do que o direito;

h)      Meus fígados esquerdo e direito operam com igual eficiência;

i)        Vestidos pretos são superestimados;

j)        Sou campeão nacional de dobradura de lençol com elástico, modelo branco Queen Size, 400 fios, recorde de 3,2 segundos chancelado pela ABNT (desvio de pontas máximo de meio centímetro, entre outras convenções);

k)      Feio não é bonito: o morro existe, mas pede pra se acabar;

l)        Já estive num ménage à trois com Gerald Thomas e Nicole Bahls;

m)    Traí uma longa linhagem de analistas de sistemas web em minha família, coisa que vinha de séculos, rendendo grande desgosto para meus pais;

n)      Nem deveriam comercializar outros tipos de maçã, dada a superioridade das Fuji;

o)      A fraldinha é um corte de carne bovina subestimado;

p)      Não dá pra esconder o que eu sinto por você – ará;

q)      Todos deveriam ter uma frigideira de ferro em casa;

r)       Se Jesus usasse tênis, toda a civilização ocidental, hoje, seria diferente;

s)       A infiltração comunista só será definitivamente anulada quando os liberais arrumarem um símbolo tão legal quanto a foice e o martelo cruzados;

t)       Não suporto crianças que misturam as massinhas de cor diferente, gerando um produto de coloração similar à matéria fecal;

u)      Sou pela banalização do “eu te amo”;

v)      Chegar à lua não é nada, quero ver conseguirem uma furadeira silenciosa;

w)    A humanidade se divide entre os que são Luciano Huck e os que não são Luciano Huck;

x)      Em vez de ensinar o número de patas do camarão, a escola deveria transmitir noções de direito e de comunicação;

y)      Já jantei com Chico Buarque, e ele me admitiu que seus olhos não são verdes nem azuis: ele tem olhos castanhos, fica trocando a lente de contato para confundir o público;

z)      Fui o responsável pelas mortes de Odete Roitman, Laura Palmer e John Fitzgerald Kennedy.