Ode à recepcionista

Deus salve os rios, as matas, as montanhas, os fiscais da receita federal, o samba de breque e o ovo pochê – mas sobretudo salve Deus as recepcionistas.

Deus salve as recepcionistas e suas meias desfiadas, as recepcionistas de rímel aplicado só na raiz dos cílios, as recepcionistas com sua rapidez invejável para mudar de tela quando alguém se aproxima. Louvemos a postura cervical desmazelada quando vêm chegando as seis horas da tarde, a risada explosiva ante a indiscrição da colega (reprimida com lábios mordidos e um soquinho na mesa), a entonação de tédio indisfarçado ao telefone quando alguma alma pobre lhe repete a mesma pergunta pela milionésima vez. Por favor, meu deusinho, salve as recepcionistas e as irmãs das recepcionistas.

Porque não há em toda a flora mundial e multiplanetária espécie tão bela quanto a mais ordinária das recepcionistas. Sim, mesmo aquela que nunca amou, mesmo aquela que não ergue os olhos para dizer “bom dia”, mesmo a recepcionista que neste momento espalha o segredo confiado pela melhor amiga traz consigo um charme intransponível, uma chama iridescente nas entranhas, um apelo com não-sei-quê suficiente para tornar tediosas quaisquer pétalas, corolas e sépalas denotativas.

Neste sábado, uma recepcionista cederá à insistência de sua companhia e experimentará gim-tônica pela primeira vez, odiando a bebida (isso é tão bonito!); amanhã, uma recepcionista se deitará, por caridade, com um ex-namorado contador (isso é belo, é emocionante); na segunda-feira, outra recepcionista matará pela terceira vez sua tia para não comparecer ao trabalho – e só de pensar nisso me dá uma vontade desgraçada de chorar.

Se é verdade que basta um deputado ter uma ideia para o Brasil piorar um pouquinho, não é necessário nada além do gesto mais banal (ou da simples presença imóvel) de uma recepcionista para que a poesia indizível reverbere no ambiente. Pesquisadores britânicos já afirmaram que nunca houve uma guerra cujas trincheiras contassem com recepcionistas, e mesmo o espírito mais soberbo se queda humílimo e aquiesce quando uma recepcionista lhe pede o número do RG.

Com isso tudo posto, desnecessário afirmar que amo as recepcionistas – mas sou cético quanto à utilidade de qualquer “hostess”.

Anúncios

A triste história do menino Guilherme Bastos

Quem associa a infância à época mais feliz da vida não está se lembrando de Guilherme Bastos. Quanta angústia cabia naquela pequena e pobre alma pueril!

Num belo dia de seus primeiros anos, cometeu a fatal burrada de demonstrar satisfação quando sua mãe lhe serviu de pão com requeijão e suco de maracujá. Para quê. Para o resto de seus dias escolares, estava decidida a boia que levaria em sua lancheirinha. Fizesse chuva ou sol, seja lá em que estação, em tempos de guerra ou de paz, pão com requeijão e suco de maracujá era o que ele tinha de carregar e comer.

Nos primeiros meses, temeroso em relação à figura autoritária da mãe, engolia a ração sem queixas. Mas quando a náusea lhe forneceu a suficiente coragem para uma tímida averiguação da possibilidade de mudança alimentar, teve de ouvir um discurso de meia hora sobre sua deplorável ingratidão, perante os pais e perante Deus, haja vista todo um mundão de crianças que não tinham o que comer.

Como a privação é a mãe da criatividade, e irmã da paciência, viu naquelas moedinhas do troco do cigarro que o pai mandava comprar (os tempos eram outros) a possibilidade de um dia de redenção. Sim, bastava um dia. Foram três semanas avaras de acúmulo de centavos para poder esvaziar sua lancheira da tranqueira de sempre e preenchê-la clandestinamente com um glorioso big mac.

Até hoje, Bastos não sabe se sua mãe, sabe-se lá de que jeito, descobriu seu sulfuroso plano e teve a ver com os fatos que se seguiriam. Chegada a hora do recreio, a inspetora anunciou o dia de troca de lanche com o amiguinho, brilhante lição pedagógica de partilha e desapego material. Qual um rei se despojando de secreta coroa, teve de entregar seu lanche a um rapaz mais novo, de olhos remelentos e famintos. A felicidade do pirralho ao receber o sanduba lhe pareceu desproporcional, mesmo se tratando de um sublime big mac. Só compreendeu tudo quando se lembrou de checar o que havia sido posto, como troca, em suas mãos: pão com requeijão e suco de maracujá.

Masterchef na Bandeirantes – o criador e a criatura

A referência – um reality show de gastronomia – pode fazer a dita classe pensante torcer o nariz, mas vem sendo muito instrutivo acompanhar o programa “Masterchef”, na Bandeirantes. São especialmente úteis as intervenções do sr. Erick Jacquin, um dos jurados, para entender algumas questões incômodas no setor de restaurantes paulistano – e cabe dizer, por extensão, no setor de serviços brasileiro.

De acordo com o que ensina o renomado chef aos candidatos do show televisivo:

a) é visto como esperteza salutar fazer comensais acreditarem que estão se servindo de algo preparado com caldo de carne enquanto, na verdade, estão comendo tabletes da knorr ou coisa que o valha;

b) se você troca o pedido de um cliente, em vez de assumir o equívoco e pedir desculpas, leve-o a crer que não houve engano, pois está sendo servida uma criação exclusiva do chef, feita especialmente para o consumidor em questão – assim, ele se sentirá lisonjeado pela deferência de tão elevado artista da cozinha e nem se importará com o que está comendo;

c) se você erra o ponto do hambúrguer e o serve cru, gelado no centro, não assuma o erro: desqualifique o consumidor, dizendo que ele não sabe comer, não está à altura do repasto e tem paladar de “menininha”.

Em suma, uma doutrina baseada no culto ao personalismo e no desrespeito ao consumidor pagante. Os exemplos que dei não são extrapolação interpretativa com fins difamatórios: o cara REALMENTE passou essas “dicas” e esses exemplos, na tv aberta, em rede nacional. Dá matéria para se pensar, não?

Também é impossível não reparar que esse senhor mora há trocentos anos no Brasil e não sabe falar português, detalhe que me irrita sobremaneira – e é um tanto sintomático, acho.

Para completar, o sr. Jacquin tem a coragem cômica de se gabar por ser “especialista” em steak tartare, o que a mim equivale a um violonista se dizer especialista na corda si, ou a um crítico literário se dizer especialista no segundo capítulo de “O Pequeno Príncipe”.

Teremos sempre um problema para se lidar enquanto a importância do criador continuar transcendendo a da criatura – seja na cozinha, no quarto, na política, na guerra, no jogo de pelota basca ou na feitura de bolas de sabão.

Comunicação clara e eficaz em língua portuguesa – apostila para download

Disponibilizo aqui, para download (link no final do texto), a apostila do curso “Comunicação Clara e Eficaz em Língua Portuguesa”, que está sendo ministrado na Escola Dona Lindu, em Diadema, como resultado de uma parceria entre essa instituição e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Como elaborei esse texto por encomenda da Pró-Reitoria de Extensão do IFSP (uma escola pública federal), acho justo torná-lo amplamente disponível para consulta.

O curso é composto de 20 aulas. Elaborei-as com o objetivo expresso de “aprimorar a clareza e a eficácia de comunicação dos alunos”, buscando incutir neles a noção de que “o domínio da organização normativa da língua portuguesa não é um fim em si mesmo, mas antes um meio para aprendizagem, aprimoramento de repertório e ganho de eficácia expressiva e comunicativa”. O leitor da apostila encontrará misturados assuntos tradicionalmente ligados a aulas de gramática, aulas de literatura, aulas de redação e aulas de interpretação de textos. Essa combinação é intencional, pois o autor acredita que a divisão do ensino de língua portuguesa em matérias estanques é didaticamente perniciosa.

No curso, tenta-se abordar assuntos muito amplos em espaço limitado. Foram feitos esforços de síntese e revisão, mas imprecisões e inadequações poderão se revelar ao leitor atento. O compartilhamento público do curso também tem o objetivo de colher sugestões para que o texto possa ser aprimorado em novas versões.

Quem quiser usar aulas da apostila para fins didáticos está livre para fazê-lo – peço apenas a gentileza de que me avisem, se isso acontecer.

O principal referencial teórico para a elaboração do curso foi Othon M. Garcia, por meio de seu “Comunicação em Prosa Moderna”, leitura altamente recomendável a todos os que se interessam pelo assunto. As demais referências estão listadas em ordem alfabética, ao final da apostila.

20140922-comunicacao-clara-e-eficaz-em-lingua-portuguesa-final

A bossa negra de Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda

Difícil encontrar alguém que negue o fato de Diogo Nogueira ter um belo timbre, além de saber colocar muito bem sua voz e conseguir sustentar-se sempre afinado, das notas mais graves até as mais agudas de sua extensão. Para que essas qualidades técnicas forjem um bom cantor, no entanto, é preciso que se somem às virtudes esperadas de um intérprete: planejamento de repertório, trabalho conjunto com arranjadores para determinar uma intenção artística, sensibilidade para entender uma melodia letrada e atacar cada nota com nuances que valorizem a mensagem da canção – e aqui ainda poderíamos citar muitos aspectos ligados à divisão melódica, à respiração etc.

Até agora, em seu currículo artístico, Diogo Nogueira vinha se comportando como um piano afinado: um instrumento valiosíssimo, de muito potencial, mas que precisa de mediação humana para gerar boa música. Seria maldoso defender que a carreira de Nogueira vinha sendo conduzida de maneira robótica, não é isso, mas parece justo apontar que os esforços mais humanos de seu trabalho – em oposição à qualidade técnica que sempre esteve lá – vinham sendo dirigidos para a construção de uma imagem de galã novelesco, gatão das gatinhas, e não para a consolidação de um intérprete valoroso do cancioneiro popular.

Toda essa introdução para passar o seguinte conselho: se você tem reservas ao nome de Diogo Nogueira por razões parecidas com as que listei acima, dê uma chance para o cara e veja/ouça seu “Bossa Negra”, turnê nacional com o bandolinista Hamilton de Holanda que estreou nesta semana em São Paulo, ancorada no álbum recém-lançado de mesmo nome.

Dispensemos o blá-blá-blá conceitual elaborado para vender o trabalho: basta saber que o repertório junta clássicos da canção nacional a temas novos, compostos pelos dois protagonistas do projeto com o auxílio de alguns parceiros. A mistura se integra muito bem em arranjos que mantêm a mesma formação inusitada em todos os números: apenas voz, bandolim, contrabaixo e percussão (recuso-me a corroborar o neologismo “percuteria” apresentado no projeto). Ouve-se uma união coesa de elementos, uma sobreposição que não soa como “salada” (o que é uma conquista rara e, por isso, merecedora de valorização). Podem-se perceber caminhando juntos samba, jazz, bossa nova, choro, contrapontos eruditos e até pagode – curiosamente, a lembrança dos afrossambas de Baden e Vinicius, declaradamente a maior influência para a realização do trabalho, não vem à mente de maneira tão óbvia quando se ouvem as canções de “Bossa Negra”.

Diogo Nogueira está ótimo. Se qualidade vocal o rapaz já tinha, e lhe faltava um pouco de esforço para tentar maiores pretensões artísticas, em “Bossa Negra” há um bom argumento a seu favor. Não sei se sua motivação para o projeto foi algo do tipo provar que não é “apenas um rostinho bonito”, mas se houve algo nesse sentido, a prova apresentada é contundente. Há forte campanha para minorar a valorização das aparências em nossas vidas, de resto uma luta justa, mas não há como resistir à tentação de comparar as (breguíssimas) capas dos álbuns anteriores de Diogo Nogueira com a capa de “Bossa Negra”: a impressão imediata é a de que deve vir algo mais sério dali, e o conteúdo musical do álbum cumpre a promessa da embalagem.

Quanto a Hamilton de Holanda, destacar suas qualidades como instrumentista pode parecer de uma obviedade ofensiva para qualquer um familiarizado com seu trabalho, mas há de se destacar que esse é seu primeiro trabalho de relevo ligado à canção, em vez de ligado à música instrumental. Há riscos grandes para o músico nessa mudança de área, aos quais já sucumbiram muitos instrumentistas virtuosos: pode-se atravessar o cantor, atrapalhando a apreensão da melodia vocal com excesso de notas, ou, pelo contrário, pode-se subutilizar seu próprio potencial de instrumentista, acompanhando o cantor com burocráticos blocos de acordes. Basta dizer que Holanda foge das duas armadilhas, preservando suas qualidades notórias de bandolinista também na execução de canções e encontrando o tempo certo para chamar a atenção.

Juntos, Holanda e Nogueira construíram um conjunto de canções que cria imediata necessidade de audição para todos os que se importam com essa forma de arte no país – especialmente para os que se importam com a canção brasileira e dizem que não se faz nada que preste há mais de 30 anos, antigamente é que era bom etc. Com esses temas novos integrados a releituras originais de clássicos tão díspares quanto “Desde que o Samba é Samba”, “Risque” e “Mundo Melhor”, temos em “Bossa Negra”, o álbum e o concerto, o evento mais relevante do ano na área de canção nacional. A se ver, a se ouvir.

Por que Aécio Neves não ganhará as eleições

Você já viu várias gentes dizendo que a mídia está dominada pelo partido da imprensa golpista, cuja razão de ser é recuperar os privilégios perdidos com a chegada de um governo “do povo” ao poder; também conhece os defensores da tese de que as hordas comunistas se infiltraram de maneira tão eficiente nos veículos de comunicação que nem os próprios diretores de jornal, muito menos os repórteres, percebem que estão trabalhando pela perpetração de um que esquema que mitiga as liberdades individuais e corrói os valores da família brasileira.

Análises tão opostas se anulam e produzem provas contra elas mesmas: esses pregadores se utilizam de meios de comunicação para dizer que não há espaço para ideias distintas nos meios de comunicação, enquanto embasam seus argumentos com fatos colhidos de outros meios de comunicação.

Donos de jornal arranjam formas de ganhar dinheiro com seja lá qual for o presidente; qualquer repórter mediano tem a vaidade de descobrir podres de seja lá qual for o político muito à frente de simpatias partidárias. Não existe reunião mensal de chefes de redação para criar uma pauta una e decidir como dominar o mundo. Erros de português dos ”mafiosos da comunicação” constituem uma questão bem mais preocupante do que o suposto poder determinador sobre os rumos da sucessão política nacional.

Mas essas obviedades, tão cristalinas, soam como borrões aos apaixonados, porque eles são… apaixonados! Gente apaixonada é muito burra e impenetrável, como qualquer não apaixonado pode perceber, embora todos tenham passado, ou ainda haverão de passar, por suas horas de paixão. A mim me parece, serve-me de consolo, que expor sua idiotice em público por uma bela dama ao menos é mais poético do que babar por um partido político, mas não estou aqui para julgar as inclinações sexuais de ninguém.

Há muitos chamados “formadores de opinião” que expressam livremente suas afinidades em relação ao PT ou ao PSDB, seja por veículos mais tradicionais (jornal, rádio, TV), seja por páginas de internet e redes sociais. Marineiros também já apresentam uma força inegável, e todos operam com maior ou menor grau de boçalidade apaixonada. Filtrando as parvoíces e alucinações, há como achar excelentes pontos a favor de cada um dos três principais candidatos e incontestáveis nódoas em seus currículos. A partir do ano que vem, estaremos com um líder melhor do que Paulo Maluf e pior do que o Professor John Robinson, do Perdidos no Espaço. Como bom pessimista que sou (não existem otimistas, só gente mal informada, diz o Cony), esse já me parece um panorama bom o suficiente.

É sem emoção, portanto, que percebo que Aécio Neves não levará essa – não deposito minha fé em nenhum dos três, nem rogo pela vitória de qualquer um deles em minhas orações, mas também não vejo riscos, seja lá quem leve a faixa, de haver a consumação do holocausto zumbi, a “descontinuação” do sorvete Häagen-Dazs ou a aposentadoria do Woody Allen.

Enquanto os mais exaltados petistas e marineiros expõem seus argumentos e desargumentos com toda a força da alma, listando zilhões de razões e desrazões por que seus candidatos são os melhores, os tucanos são um grupinho enrustido, do armário. Coisa mais rara é achar um pê-esse-debista que bata no peito e vá com orgulho para a Avenida Paulista. Eu, tucano? Imagina, só porque votei no PSDB nas últimas 87 eleições e não suporto a ideia de votar em qualquer outro partido? Sou forçado a isso, com a atual conjuntura, temos de tirar essa desgraça daí de qualquer jeito, blá blá blá blá blá.

Propagandeando o candidato “menos ruim”, enquanto os outros louvam a honra e o mérito de seus escolhidos, não há como os formadores de opinião tucanos conseguirem algo melhor do que a pregação para os convertidos, não se dando ao trabalho de tentar dissuadir quem está em dúvida – mais do que isso, humilhando quem está em dúvida, atribuindo a quem cogita qualquer opção, se não a “óbvia”, uma escala de adjetivos que vai de “sórdido” a “acéfalo”. Mas talvez isso não os incomode: escolher um presidente é uma responsabilidade com riscos óbvios – vai que o cara chega lá, faz um monte de merda e nos deixa como paspalhos? –, enquanto sentir-se parte de um clube de elite, superior intelectual e moralmente, ah, isso é recompensador.

Eu confesso que

Lia textos curtos em redes sociais, do tipo “meu feijão queimou”, “comprei uma blusa nova”, “tô com preguiça de ir pra academia” e, em minha inocência, não entendia a motivação para pessoas compartilharem dados de aparente irrelevância para qualquer outro ser que não fossem os próprios autores dessas mensagens confessionais. Tive de realizar profunda meditação, reavaliação de posturas e limpeza de preconceitos para perceber que se trata de nova forma expressiva que não pode ser desprezada só porque até então não havia sido explorada dignamente pela assim chamada “alta cultura”.

Tentarei fazer então pequeno exercício de reciclagem profissional e aderir à nova tendência – de maneira um tanto particular, claro, pois seria muito arrogante tentar copiar os mestres dessa forma criativa. Isso posto, confesso que:

a)      Sempre achei as girafas mais interessantes do que os cachorros ou os gatos – aguardo ascensão social para que possa ter uma, como bicho de estimação, em meu quintal;

b)      “Bandeira; flâmula” é uma ótima resposta para se dar no glorioso jogo de tabuleiro Academia, seja qual for o substantivo pedido pela banca;

c)      Na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba;

d)     Entre Lennon e McCartney, fico com Brian Wilson;

e)      Tenho dificuldades para comprar calças que me sirvam, pois a numeração ideal para a minha perna direita seria 42, enquanto a perna esquerda pede um 48;

f)       Meu olho direito vê consideravelmente melhor do que o esquerdo;

g)      Meu ouvido esquerdo escuta com muito mais sensibilidade do que o direito;

h)      Meus fígados esquerdo e direito operam com igual eficiência;

i)        Vestidos pretos são superestimados;

j)        Sou campeão nacional de dobradura de lençol com elástico, modelo branco Queen Size, 400 fios, recorde de 3,2 segundos chancelado pela ABNT (desvio de pontas máximo de meio centímetro, entre outras convenções);

k)      Feio não é bonito: o morro existe, mas pede pra se acabar;

l)        Já estive num ménage à trois com Gerald Thomas e Nicole Bahls;

m)    Traí uma longa linhagem de analistas de sistemas web em minha família, coisa que vinha de séculos, rendendo grande desgosto para meus pais;

n)      Nem deveriam comercializar outros tipos de maçã, dada a superioridade das Fuji;

o)      A fraldinha é um corte de carne bovina subestimado;

p)      Não dá pra esconder o que eu sinto por você – ará;

q)      Todos deveriam ter uma frigideira de ferro em casa;

r)       Se Jesus usasse tênis, toda a civilização ocidental, hoje, seria diferente;

s)       A infiltração comunista só será definitivamente anulada quando os liberais arrumarem um símbolo tão legal quanto a foice e o martelo cruzados;

t)       Não suporto crianças que misturam as massinhas de cor diferente, gerando um produto de coloração similar à matéria fecal;

u)      Sou pela banalização do “eu te amo”;

v)      Chegar à lua não é nada, quero ver conseguirem uma furadeira silenciosa;

w)    A humanidade se divide entre os que são Luciano Huck e os que não são Luciano Huck;

x)      Em vez de ensinar o número de patas do camarão, a escola deveria transmitir noções de direito e de comunicação;

y)      Já jantei com Chico Buarque, e ele me admitiu que seus olhos não são verdes nem azuis: ele tem olhos castanhos, fica trocando a lente de contato para confundir o público;

z)      Fui o responsável pelas mortes de Odete Roitman, Laura Palmer e John Fitzgerald Kennedy.

Ouvir canções: nova raridade

Se se sair perguntando por aí, serão raros os que dirão não gostar de música. “Ora, quem não gosta?” Não há razão para duvidar. Hoje em dia, no entanto, o ato corriqueiro de parar para ouvir música se tornou uma raridade, coisa de nicho. A música erudita ou a música instrumental popular há tempos já são matéria para iniciados, mas o raciocínio se estende mesmo às canções: todos gostam delas, mas quantos se dispõem a dedicar sua atenção para apreciá-las?

Esmiuçar o porquê é tarefa que vai além de minhas pretensões e competência, mas o fato é que muito pouca gente (certamente menos do que há 30 anos, para não ir muito longe) consegue extrair prazer da simples audição musical, ou lítero-musical, da qual aqui tratamos particularmente. Outras formas de entretenimento e de arte, com a expansão das facilidades de comunicação e transmissão de informação, passaram a competir com a audição de canções, de forma que o homem que se senta à poltrona exclusivamente para ouvir um disco – ou uma coleção de canções em algum formato digital, vá lá – se tornou o praticante de uma excentricidade até vista com glamour, mas também como coisa para quem tem tempo para gastar. Um colecionador de selos.

As canções sobrevivem – sobreviverão enquanto houver humanidade, pois a associação de palavras à melodia é imemorial. Mas assim como é possível falar que, antes do século 20, por inexistência de meios fieis de reprodução e difusão, o gênero “canção popular” não estava inteiramente formatado, é cada vez mais seguro perceber dificuldades da manutenção, no século 21, da canção popular como forma autossuficiente de expressão e criação artística. Há, sim, uma crise da canção.

Aponto como curiosidade o fato de que um gênero artístico contemporâneo do estabelecimento da canção popular, o cinema, não sofra da mesma crise. Pode-se até discutir se a sétima arte já passou por dias melhores, mas não há dúvida de que as pessoas ainda param para ver (e ouvir) filmes. Nesses tempos de tão velozes estímulos multissensoriais, lidar apenas com a audição teria deixado a música (e a canção, por extensão) para trás na busca por apreciação popular? Os apreciadores de cinema mudo são tão ou mais raros do que os apreciadores de canção, e a oscarização recente de “O Artista” é a exceção que confirma a regra.

Mas com tantos popstars da música ainda dominando capas de revista, blogs, sites e quetais, como esse camarada pode vir falar de crise da canção no século 21, escassez de apreciadores?

As canções sobrevivem – repito a afirmação. No grosso dos casos, porém, o ouvinte não mais procura a canção: é a canção que deve se apresentar ao ouvinte. Desse imperativo, resulta a infantilização média do apreciador e, por extensão, como os criadores querem ser ouvidos, da produção do cancioneiro. Se o negócio é saber se apresentar, valem todas as regras da boa apresentação de uma “campanha” aplicadas à modalidade específica da canção: repetição intensa, grande gasto publicitário para a promoção de determinado intérprete, melodias de simples memorização e reprodução, letras diretas e que não se prestem a múltiplas possibilidades interpretativas etc.

Temos de voltar, também, aos tão discutidos estímulos multissensoriais: nos intérpretes contemporâneos de maior alcance público, a imagem é quase sempre indissociável do produto musical – quando se conseguem distinguir os dois aspectos, é o conteúdo imagético que salta à lembrança.

É claro que dessa junção podem sair criações instigantes – lembremos que o próprio gênero canção funde música e literatura, o cinema trabalha diversas expressões simultaneamente etc. –, mas quando o surgimento de uma nova possibilidade criativa pesa sobre outra, anterior, a arte sofre.

Nas apresentações musicais que ainda conseguem juntar público significativo (sintomaticamente conhecidas como “shows”), a maior parte da audiência, antes de querer ouvir canções, tem outras prioridades: “cantar junto” temas que já lhe foram empurrados à exaustão pelas mídias, espantar-se com a pirotecnia das grandes produções, extravasar sua energia por meio de movimentos espasmódicos de ligeira similaridade com aquilo uma vez conhecido como “dança” e promover celebrações em tom sensual/sexual aditivadas por drogas lícitas e ilícitas – difícil escrever isso sem parecer um dinossauro conservador, mas se for para resumir de maneira bem direta, a gente sabe que o menos importante num grande “show” musical é a apreciação das canções, não é mesmo?

Essa nova ordem afeta não apenas talentos incipientes – como se fazer ouvir sem dispor de um grande aparelho publicitário e/ou de facilidade para também se expressar imageticamente? – como, do mesmo modo, verdadeiras entidades: quando Paul McCartney toca suas duas canções, entre outras 48, com menos de 30 anos, é o momento certo para comprar cerveja. Se uma lenda viva, para usar o chavão, tem de se reduzir ao papel de entertainer e cover de si mesmo em suas apresentações, abrindo mão de expor ao público suas inquietações artísticas ainda pulsantes, como estimular quem está começando?

Vigora a canção “arte decorativa” – o termo muito associado, pejorativamente, às artes plásticas, ganhou novas possibilidades: canções para ouvir na esteira, no supermercado ou no churrasco com os amigos podem até ser divertidas, mas não deveriam ser praticamente tudo o que produz para o gênero.

Há de se acreditar no formato canção como veículo de elevada expressão artística, sabendo que é muito difícil conjugar essa expressão com grande apelo popular. Os pontos fora da curva aparecem como milagres: a canção já esteve na moda – não está mais. Estão na moda os seriados de televisão, forma mais fácil de encontrar, atualmente, poder criativo profundo com respaldo público massivo. Na maior parte dos casos, no entanto, as inclinações artísticas não são tão facilmente intercambiáveis: alguém que nasceu para se expressar por meio de canções não é obrigado a se tornar roteirista televisivo porque tem mais chances de “vencer na vida” – talvez essa seja uma inclinação natural que justamente mova a criação de ondas em determinados veículos artísticos, mas aí estamos apenas levantando hipóteses de difícil comprovação.

O público para a canção mais sofisticada, com diferentes níveis de leitura, é restrito. Os dias de Cole Porter comovendo legiões às filas da Broadway não voltam mais, Chico Buarque nunca mais venderá 700 mil cópias de um álbum, George Gershwin, hoje, jamais seria o artista mais rico do mundo, como o foi na década de 1930. E esse estreitamento deve ser assimilado por quem pretende fazer arte por meio da canção: é contraproducente tentar se opor à pecha de elitismo que geralmente cola em quem compõe de forma a não se direcionar a grandes massas, conscientemente.

Estive nesta semana na graciosa apresentação (gracioso show?) de lançamento do quinto álbum de Marcela Bellas. Quinto álbum! E eu, que sou interessado na área, nunca havia ouvido falar da moça. A casa em que ela se apresentou é pequena. E daí? Quem esteve lá pôde ouvir temas que combinam distintos estilos rítmicos e tendências de arranjo, não como quem mistura gêneros para provar uma tese antropológica, chatice que maltrata muitas das criações contemporâneas, mas como quem aposta na diversidade para enriquecer e adornar uma bela melodia; as letras de seu repertório, por sua vez, passam dos toques cômicos aos arroubos emocionais sem nunca parecerem vulgares ou melosas. Com tudo o que se pode esperar de um conjunto memorável de canções, o público que lhe assistia lhe prestou atenção e respeito – numa casa pequena de São Paulo, não no Morumbi. A mesma pequena casa, por sinal, receberá em breve a famosa Marina Lima.

Há muitos os que, ingênua (na melhor das hipóteses) ou oportunisticamente (nos piores casos), reclamam da falta de apoio público para a divulgação de suas canções. Em Londrina, cidade onde vivi a maior parte de minha vida, isso é uma praga. A audiência é pequena, sim, os lugares para se tocar são escassos, sim, não porque a prefeitura de Londrina não coloca dinheiro na conta de autores de canções (deveria colocar?), mas porque a conjuntura (e aí podem entrar fatores sociológicos, filosóficos, mercadológicos, astrológicos) atual faz com que a audiência seja pequena e os locais de apresentação sejam poucos para os novos autores de canção, em Londrina, São Paulo, Nova Iorque, Londres ou Cabul. Prostrar-se e lamentar a falta de verba governamental não é a solução.

Há uma solução? Não chega a ser uma solução, nem uma rima, mas o caminho só pode ser fazer mais e melhores canções, obstinadamente.

A canção não anulou a música e a literatura; o cinema não varreu do mapa o teatro, a arquitetura, a fotografia e tantos outros formatos artísticos do qual se vale. Pode ser que a canção nunca mais tenha o público de outrora – é o mais provável –, mas só cabe aos artistas, os que ainda acreditam, não deixar a publicimageticacanção torná-la prescindível. Que a continuem compondo, e arranjando, e interpretando, e cantando, na certeza de que haverá quem se emocione com ela, a canção pura, sem gelo, essências e edulcorantes. E isso fará toda a diferença na vida dessas pessoas.

A morte e a morte de girafa

Uma girafa morreu em Johannesburgo nesta semana, vítima da imprudência humana ao lidar com espécie tão delicada e pescoçuda. Transportada em caminhão para ser levada ao veterinário, bateu com a cabeça em um viaduto, não resistindo aos ferimentos. Irônico como uma viagem planejada para melhorar sua saúde acabou sendo a causa da morte da girafa, girafa que nem nome tem, ou ao menos não o teve divulgado.

Totó, Rex, Fifi – são nomes clássicos para os cães. Qual seria o nome da girafa morta? Na tradução dos textos das agências que relataram a tragédia, os termos variáveis estão sempre no feminino, “morta”, “ferida”, opção de redação óbvia por causa do gênero do substantivo que distingue o animal. Mas esta girafa morta poderia muito bem ser um varão, ou ainda ser um animal que recusava rótulos de gênero. Gosto de pensar na girafa morta como Gina – meu nome mental para todas as girafas, seja lá qual for o sexo delas.

O curioso é que, juntamente com Gina, havia outra girafa no caminhão, e esta saiu ilesa da travessia sob o viaduto. Mais esperta?, mais ágil?, por sorte estava procurando uma moeda no chão no momento fatal para sua companheira?

Triste ventura a das girafas. Durante anos, ouvimos de nossas mães para não colocarmos a cabeça para fora da janela do carro, ou a teríamos arrancada. Poucos são os filhos que seguem o conselho materno; afinal, colocar a cabeça para fora do carro é divertido (quando não se é mais criança a diversão diminui um pouco), e as chances de aparecer repentinamente algo que arranque sua cabeça são pequenas caso os seus sentidos, principalmente a visão e a audição, estejam funcionando regularmente. Já as girafas, mesmo sendo filhas exemplares, que jamais contestariam as ordens maternas, não têm como manter seus colossais pescoços dentro de um veículo que também não seja (o que é bastante raro) colossal.

Assim como é colossal a estupidez do responsável pelo transporte dos animais, Deus do céu. Quando compramos uma caixa de ovos no supermercado, já há toda uma preocupação em acomodá-la adequadamente, dirigir com cuidado. Imagina se você é incumbido de transportar girafas!, o mínimo que se pode esperar é um pouco de consciência sobre o que se está fazendo. Uma pessoa que não tem capacidade nem para cuidar de uma girafa deveria ser interditada juridicamente e ter seus direitos civis limitados. Não tem capacidade para votar, casar, dirigir, nem deve ter liberdade para comprar sorvete.

A girafa existe sem nome, sem razão, servindo a seu inglório e involuntário propósito de entreter humanos, tendo como ápice da vida o momento da morte, tornada notória pelo aspecto tragicômico. E os que a sobrevivem acham triste, mas seguem em seus rumos inalterados. O quanto de girafa há em você, leitor amigo, meu irmão? E o mais importante: no caminho de volta do veterinário, qual foi a condição de transporte da girafa sobrevivente?

Revolução nos debates políticos

Todos defendem a saúde, a educação, o pleno emprego, a eficiência do transporte público e a redução dos índices de violência. Sem inclinação prévia bem definida, como então escolher um candidato, caso não se queira anular o voto nas eleições de outubro?

Não faz muito, os debates televisivos eram um auxílio divertido para a tarefa inglória. Claro, difícil relacionar o grau de eloquência no showzinho com eficiência administrativa e idoneidade, mas pelo menos havia um critério a se seguir, nem que fosse com sinal inverso: “vix, o cara fala muito bem, é espontâneo, cita dados com segurança, espirituoso, não pode prestar”.

Nem isso nos resta agora, com a superprodução dos debates. As regras são esmiuçadas em acordo prévio pela equipe dos candidatos, determinados assuntos são vetados, réplicas são coibidas, tudo para que um postulante não se distinga do outro e o evento possa ser o mais modorrento e enfadonho possível, não estragando os planos do marqueteiro de ninguém.

A morte de Plínio Arruda Sampaio, meio eclipsada pela copa do mundo, tem muita força simbólica nesse âmbito. Sem entrar no mérito de suas tendências políticas, é inegável que sua presença irreverente nos debates da corrida presidencial de 2010 foi o canto de cisne da era do debate romântico. Sabem como é: o debate arte, debate moleque, debate samba, debate bola de meia, debate Macunaíma.

Pilantras em nosso meio político sempre houve e sempre haverá, mas houve tempo em que pelo menos nos levavam a exclamações de entusiasmo pela força retórica, não apenas a esgares.

Já que qualquer questão mais incisiva é respondida ou com tergiversações, ou de acordo com um roteiro definido com base em pesquisas de opinião, sugiro mudança completa na formatação dos debates políticos. Inaptos para cuidar da coisa pública, podem os políticos nos entreter, já seria um começo.

Faz tempo a aventura política naufragada de Silvio Santos, já há distanciamento para que ele possa mediar debates, seria muito atraente. Mas não podemos colocar nas costas de uma só pessoa, vinculada a um só canal, a responsabilidade dessa reformulação do espetáculo. Seja quem for o apresentador, o importante é a revisão da postura: acabemos com questões pertinentes sobre política fiscal, economia, relações exteriores, inflação. Ninguém entende nada disso mesmo, fica fácil para nos enganarem.

Perguntemos sobre aquilo que realmente nos deixa intrigados: empadas podem ser só de frango e palmito, ou a diversidade de sabores é benvinda? Por que a qualidade do sorvete da Kibon caiu tanto? Por que as mulheres se maquiam tanto em festas de casamento para ficarem mais feias do que quando vão trabalhar? O que aconteceu com os suspensórios? Fred Astaire ou Gene Kelly? Valesca Popozuda ou Grace Kelly?